A Sub Pop continua, embora sem Bruce Pavitt e embora sem os grandes responsáveis pelo seu sucesso. Ainda é uma gravadora indie, graças a Deus. A lição tirada de tudo fez com que bandas como o Pearl Jam continuassem no mainstream, mas livres de qualquer pressão. Estão fazendo o que querem fazer - e sendo criticados pela velha mídia hipócrita. O Mudhoney chegou a dar um tempo porque seus integrantes precisavam trabalhar, um num armazém, outro como jardineiro...em fevereiro fizeram 6 shows no Brasil, e continuam fazendo o mesmo som que sempre gostaram de fazer. Tudo pelo simples prazer de tocar.
Mas também, as bandas de garagem, o coração do rock de Seattle e adjacências continua pulsando. O mesmo tipo de guris sinceros e tímidos continua a dar vida à cena musical, que agora inclui bandas de rap, electronic e new metal. A atitude é a mesma, os tempos é que são outros. Depois de tudo o que aconteceu, Eddie Vedder reflete: "Se toda a influência que as bandas e as pessoas tiveram sobre a indústria e sobre o público não tiver resultado em nada positivo, esta será a verdadeira tragédia de tudo isso."
Na verdade, cabe agora a nós, que somos grandes fãs de tudo o que Seattle nos concedeu: as bandas, a sonoridade, os ícones; nos cabe tirar lições de tudo o que aconteceu. A questão da sinceridade com o que se faz, da atitude de não esperar as coisas acontecerem, das armadilhas que o sucesso traz; das consequências trágicas da relação com as drogas, até mesmo da importância que nossos pais tem em nossas vidas...pode parecer piegas, mas eu aposto que Eddie e Kurt adorariam ter tido um bom relacionamento com seus pais...
Também precisamos seguir o conselho de Kurt, quando ele disse que esperava que as pessoas não copiassem seu jeito nem sua música e sim a sua atitude. Ele também queria que nós aproveitássemos a oportunidade que o Nirvana deu ao expôr o underground, e ir atrás das boas bandas escondidas por aí. Não deixemos que a sua morte tenha sido em vão.
Grunge is dead, rock and roll will never die !
O marketing da mídia atingiu graus tão estapafúrdios, que no Natal as lojas de departamento estavam vendendo a grungewear - calças rasgadas com um long-john por baixo, camisas de flanela e gorros a preços de loja de grife...e ninguém sequer sabia que toda a cidade usava camisas de flanela xadrez porque a região noroeste é terra de lenhadores, ou que os malucos usam long-johns sob seus jeans rasgados porque em Seattle o frio é insuportável!
Os jornais e revistas corriam atrás das gravadoras e das pessoas comuns da cidade pra saber da vida pessoal dos astros. O New York Times ligou para a Sub Pop e pediu à atendente que lhe revelasse a gíria grunge! A garota achou aquilo tão ridículo que começou a inventar um monte de bobagens só para sacanear o jornal. E no outro dia estava estampado na primeira página "Conheça a gíria Grunge!".
Embora pareça demagogia, nenhum dos grandes nomes do grunge estava correndo atrás da fama. É óbvio que o que fez Kurt Cobain sair de Aberdeen para Seattle era a vontade de fazer rock n' roll e tornar sua música conhecida, mas o plano era vender umas 1000 cópias do primeiro disco, excursionar pelos clubes do país e viver uma vida tranquila. Faz parte da própria ideologia punk (e grunge, se é que isso existe) a aversão à fama e ao sucesso, pois junto com eles vem as armadilhas da responsabilidade, e isso era a última coisa que a galera tinha em mente.
De repente, pessoas comuns, tímidas e às vezes com sérios problemas pessoais tinham seus rostos estampados em todas as capas de revistas e suas vidas expostas pra todo mundo ler. Que o diga Kurt!
As pessoas costumam associar a fama à necessidade de se drogar. Parece que pra fazer sucesso, ser uma estrela, é necessário um pouco de heroína. Talvez ninguém tenha parado pra pensar que a realidade é exatamente o oposto.
Andy Wood foi a primeira vítima da cena. Na verdade, ele e sua banda, o Mother Love Bone, nunca foram muito conhecidos até serem incluídos na trilha do filme Singles, de Cameron Crowe. Jack Endino diz que Andrew era o único roqueiro comediante que Seattle tinha, muito engraçado e com uma disposição contagiante. Alguém já disse que se ele não tivesse morrido por causa de uma overdose de heroína em 1990, o Mother Love Bone teria ocupado o lugar que o Nirvana ocupou e Andy seria o que Kurt será para sempre. E ele nem era famoso ainda!
Basta pensar: você tem uma banda com os seus melhores amigos; vocês adoram tocar pra seus outros amigos e ser aplaudido por eles; você quer gravar um disco e tocar por aí, tornar sua música conhecida.; tudo o que você quer é se divertir. Daí você vê uma oportunidade de ganhar dinheiro enquanto se diverte, e você embarca nessa. De repente você começa a ser obrigado a fazer shows com bandas que você odeia, a gravar discos melhores que os anteriores, a dar entrevistas idiotas e a ter sua vida pessoal exposta pra gato e cachorro. Não é mais diversão, é obrigação! E o seu sonho é sufocado pela comodidade.
Sim, Kurt cometeu um erro, mas será que a maioria de nós não cometería também? O fato é que se transformar no ícone de uma geração foi demais pra ele e em abril de 94, Kurt deu um tiro na cabeça. Simbolicamente, a morte de Kurt Cobain representou a morte de tudo que era falso e que foi fabricado em cima de algo verdadeiro e sincero. A morte de uma jogada de marketing que deu lucro às grandes gravadoras - hoje o underground é perfeitamente vendável - e prejuízo ao rock, especialmente o de Seattle. O que é mais doloroso é que Kurt foi e ainda é o cara mais sincero e mais verdadeiro que o rock já conheceu. O problema é que o peso do hype estava todo sobre ele.
(... Continua ...)
Mas eis que nesse ano, a turma do Sonic Youth - que já havia aberto caminho do underground para o mainstream e assinado com a DGC - aconselha a sua gravadora a assinar contrato com uma banda da Sub Pop que eles consideravam serem muito boa: Nirvana.
Como todos já sabemos, o Nirvana nasceu em Aberdeen, a sudoeste de Seattle, quando Kurt Cobain e Krist Novoselic decidiram formar uma banda. Quando ouviu o primeiro EP do Soundgarden pela Sub Pop, Kurt viu que era hora de se mudar para Seattle e ver no que dava. Conseguiram uma grana e por indicação dos Melvins - que também vieram de Aberdeen e cujo vocalista Buzz Osbourne foi quem ensinou Kurt a tocar guitarra - foram bater na porta de Jack Endino, o engenheiro de som que a Sub Pop usava e que se tornou o "mago do grunge".
Com ele o Nirvana gravou uma deAté 1990, poucas bandas de Seattle - ao menos do período "Sub Pop" - haviam conseguido contratos com majors (as grandes gravadoras): o Soundgarden, que cedeu aos galanteios da A&M em 89; o Alice in Chains, que fêz seu próprio caminho a partir de 87, independente do que estava acontecendo, assinando com a Columbia; e o Screaming Trees, que de "grunge" nunca teve nada e assinou com a Epic. O resto continuava indie, underground e desconhecida (pelo menos mundialmente).
mo contendo 10 músicas, as quais Endino considerou as melhores que ele já havia gravado. Passou a fita para Jonathan Poneman e o Nirvana passou a fazer parte do pool da Sub Pop. Após assinar com a Geffen, em 91 a banda lança seu segundo álbum, "Nevermind", e o resto é história. Em poucas semanas o álbum alcança disco de ouro nas vendagens e converte corações e ouvidos para a banda e também para Seattle...
Da mesma maneira que a Sub Pop havia vendido o som de Seattle para a região e para a Europa, a mídia começou a disseminar a idéia de uma novidade no Rock. O Alice in Chains já havia chutado a porta do mainstream com seu Hard Rock alternativo e agora o Nirvana vinha pra derrubá-la. Mais ou menos ao mesmo tempo, o Pearl Jam, que havia nascido das cinzas do Mother Love Bone, que havia nascido das cinzas do Green River, que de suas cinzas fez nascer o Mudhoney, lança seu primeiro álbum, já numa major - a Epic - e faz Seattle entrar de vez para a história do Rock.
Aliás, relações incestuosas é uma das características das bandas de Seattle - digo, as que realmente são da cidade de Seattle. A coisa vem de longe: Andrew Wood era vocalista do Malfunkshun. Quando a banda acabou ele formou o Mother Love Bone junto com Stone Gossard e Jeff Ament, que haviam vindo do Green River e tocavam junto com Mark Arm e Steve Turner, que mais tarde formaram o Mudhoney. O baterista do Mudhoney já tocou com o Nirvana, assim como Jason Everman já foi guitarrista, tanto do Nirvana quanto do Soundgarden... (dê uma olhada na Árvore Genealógica do Grunge, para mais detalhes).
Não se sabe ao certo de onde surgiu a denominação "grunge" (que significa sujeira, podridão), mas todo mundo concorda que partiu da mídia. Como não havia um nome para o novo produto que as gravadoras tinham a oferecer, nasce o Grunge Rock. Embora haja um elemento comum entre as principais "bandas de Seattle", incluindo atitude punk e um pé no hard rock setentista, seus estilos são tão diversos que há quem diga que a diversidade nega o rótulo.
O fato é que, se de um lado a indústria fonográfica e as próprias bandas contratadas estavam alcançando o nirvana, a cena musical da região noroeste e principalmente de Seattle foi vituperada. Todo o mundo começou a achar que Seattle só tinha bandas grunge e, de repente, a cidade foi invadida por jornalistas, empresários e malucos procurando o novo Nirvana. Quem foi esperto se deu bem. Algumas outras bandas conseguiram contrato com majors mas sem muito alarde. Ironicamente o Mudhoney, considerada por gente com Kurt Cobain e Dave Grohl, a melhor banda de Seattle, foi a última das pioneiras a assinar com uma grande - a Reprise. A verdade é que a mercantilização da música sufocou a intensidade musical da cena. Não havia mais sinceridade nem diversão; havia o dinheiro...
(... Continuar ...)
Teoricamente, o que se começou a fazer de diferente foi inverter a escala de notas das canções dos Sex Pistols e a dar um ar mais compassado, mais Sabbathiano por assim dizer. Foi essa sonoridade que veio a ser chamada mais tarde de "grunge", coisa que na época ninguém pensava em nomear. O primeiro registro do fato foi a coletânea "Deep Six", lançada pela C/Z Records em 1986 com o Skin Yard, The Melvins, Malfunkshun, Soundgarden, U-Men e Green River. Um presságio do que havia de vir.
Havia em Olympia um cara chamado Bruce Pavitt que editava por conta própria um fanzine em forma de fita cassete com coletâneas de bandas nacionais. Após lançar 9 zines e 3 cassetes, Bruce se mudou para Seattle, empolgado com o que estava acontecendo por lá. Reúne algumas bandas locais e da região e lança em 86 o primeiro disco da Sub Pop, Sub Pop 100.
Passando por uma crise financeira, Bruce reencontra seu velho amigo Kim Thayil, agora guitarrista de uma banda chamada Soundgarden, que lhe aconselha a tornar-se sócio de Jonathan Poneman, um DJ que tinha seu próprio programa de rádio, dinheiro e que queria muito bancar o primeiro disco do Soundgarden. Foi então que Jon e Bruce juntaram forças e a Sub Pop Records passou e existir como uma empresa.
Os dois primeiros EPs lançados foram "Dry As A Bone" do Green River, em julho de 87 e "Screaming Life" do Soundgarden. Diante de uma identidade musical se desenvolvendo na região, a Sub Pop começou com o seu projeto de dominação mundial, contratando todas as bandas que estavam fazendo o "som peculiar" de Seattle.
A partir de 1988, bandas de várias cidades da região, especialmente das cidades mais próximas como Tacoma, Olympia, Ellensburg e Aberdeen começaram a migrar para Seattle, que era onde as coisas estavam acontecendo. Bandas que no início dos 80 haviam se mudado de Seattle para San Francisco, agora retornavam em busca de alguma oportunidade.
Até o fim do ano, a Sub Pop já havia lançado bandas como Blood Circus, Soundgarden, Mudhoney, Tad e Nirvana. No mesmo ano, a gravadora pagou um vôo de Londres para Seattle a um influente jornalista da conceituada revista Melody Maker para que ele assistisse a um show do Mudhoney. O tal jornalista ficou tão empolgado com o que viu que escreveu uma matéria enorme sobre o "som" de Seattle, e logo logo as bandas da Sub Pop estavam fazendo suas primeiras turnês internacionais pela Europa e seus singles e álbuns sendo editados por lá.
Do Noroeste para Seattle, de Seattle para a Europa, da Europa para o mundo! Até os próprios norte-americanos só foram perceber o que estava acontecendo quando ouviram o single "Touch Me, I'm Sick" do Mudhoney. E a Sub Pop achou suas galinhas dos ovos de ouro.
O que se diz a respeito da gravadora é que ela foi, não apenas astuta em explorar a identidade do Rock local como também foi criativa, ao escolher um determinado tipo de banda que tivessem um determinado tipo de som para fazer parte de seu time. Interessante é notar que isso ainda não era o "grunge". Muitas das bandas que estouraram local e nacionalmente nessa época, só se tornaram conhecidas mundialmente depois do Nirvana. Na verdade, quando chegou 1990 todo mundo achou que o "hype" havia se esgotado e que Seattle e suas vizinhas voltariam às suas vidas sossegadas...
(... Continua ...)
De fato, a grande maioria das bandas, não só de Seattle mas de toda a região, eram bandas Punk falsificadas ou de Heavy Metal com aqueles ridículos cabelos armados e correntes. Não havia nada original.
Como não havia muitos shows e aliado a isso o fato de chover o tempo todo, os malucos se enclausuravam em seus porões e junto com amigos começavam a inventar músicas, fazer um som barulhento, formar bandas; daí a pouco as bandas começaram a se juntar para alugar galpões e garagens e fazer seus próprios shows. Foi só a partir disso que começou a surgir, especialmente em Seattle, uma cena roqueira. O detalhe é que todas as bandas tinham consciência de que estavam apenas se divertindo, de que a terra dos contratos milionários era a Califórnia e ninguém iria até Seattle para contratá-los.
Algumas bandas memoráveis do meio dos 70 até o início dos 80: Red Dress, Malfunkshun, The Blackouts,
U-Men, The Fartz, Bundle of Hiss, Feast, 64 Spiders, Skin Yard...
O início dos anos 80 viu surgir uma grande quantidade de novas bandas. Havia o seguinte pensamento em voga: "Ora, se não para de chover, se meu amigo Mark tem uma droga de banda e consegue tocar e se divertir, se eu sei tocar alguma coisa...que se dane eu vou montar a minha banda!". A partir daí nasceram dezenas de bandecas e outras dezenas de ótimas bandas, fossem elas Punk, Hard Rock, Heavy Metal, ou...tudo misturado!
Quando a rapaziada começou a se cansar das fescuras do Rock dos anos 80, começaram a tocar músicas despretensiosas, desconstruídas e infernalmente barulhentas. Que o diga a Thrown Ups, que nunca ensaiava e tocava propositalmente desafinada! Um ponto influente nesse processo é o fato de que os integrantes dessas bandas não eram "roqueiros", na acepção da palavra, e sim um bando de "nerds" frustrados, filhos de pais separados, que não tinham mais o que fazer a não ser ficar bêbados e pular de um palco. Eles não eram entertainers, não entendiam dos métodos do mainstream; tudo o que eles sabiam era agitar!
O lema punk "do it yourself" (faça você mesmo) tornou-se uma filosofia de vida, de forma que ninguém mais esperava por ninguém nem por nada. Enquanto não estava na escola, a molecada estava fazendo um fanzine, montando bandas, criando selos e lançando seus próprios singles. Tudo com muita liberdade e controle do próprio trabalho. Foi nesse contexto que surgiram selos seminais como Popllama, K, C/Z e Sub Pop.
(... Continua ...)
De repente a moda do rock eram calças jeans rasgadas, bermudões, camisas xadrez de flanela e coturnos velhos.
Falava-se na ressurreição do Punk e também na morte do Metal. Mas na verdade, pouca gente sabe o que aconteceu no Noroeste americano no fim dos 80, a não ser o que a mídia e as majors venderam (e como venderam!). Especialmente para nós brasileiros, que estávamos, digamos, um pouco longe da realidade.
O objetivo deste site é contar a você toda a história do que se conhece como grunge: o princípio dos fatos, a manipulação da mídia e demostrar por que ele morreu de verdade e por que isso significou um alívio para o Rock. Não se espante, eu sou fã nº 1 das bandas ditas "grunge", mas vou tentar te convencer de que elas nunca quiseram ser chamadas assim, e nem precisavam.
Neste site você tem mais de uma opção de navegação, mas sugiro que você faça uma viagem cronológica por ele. Para isso, vá clicando nas setas vermelhas. Tire bom proveito e espalhe a existência desta fonte de informação.
"Rock and Roll will never die"!
Localizada na região Noroeste, no estado norte-americano de Washington, Seattle é uma cidade portuária fundada em 1869. O nome da cidade é uma homenagem ao grande líder indígena Chefe Seattle que ficou conhecido por seu discurso dirigido ao então governador do estado Isaac Stevens, pedindo que o homem branco tivesse mais respeito pelos direitos dos Nativos Americanos e pelo meio ambiente.
A 182 km de distância da fronteira EUA/Canadá, Seattle possui um clima que lembra um pouco a região sul do Brasil, registrando 0º ou menos no inverno e 25º no verão. A peculiaridade da cidade está no fato de que por lá chove uma média de 200 dias no ano, possuindo assim um índice pluviométrico de c. 92 cm/ano!
Seattle despontou nos Estados Unidos como a melhor cidade para a instalação de empresas de tecnologia. Não à toa, lá redidem as sedes de empresas internacionais como a Boeing, Microsoft e mesmo empresas de biotecnologia como a que tem se empenhado em mapear os genes humanos.
Mas, tanto Seattle quanto o resto do Noroeste norte-americano também tem fama de ser um lugar onde coisas estranhas acontecem. Muitas estórias sobre OVNIS e cultos ocultistas, assim como a honra de dar ao país uma boa quantidade de serial killers. Diz-se que a família Manson (não de Marylin mas de Charles), costumava passar as férias na região...
Algumas das cidades mais importantes, além de Seattle são Olympia, a capital do estado, Tacoma, Bremerton, Everett e Columbia.
(... Continua ...)
|
||
![]() | ||
![]() | ||
![]() | ||
|
||